Ciência colaborativa na pandemia

O jornalista Bruno de Pierro nos contou um pouco sobre sua concepção de ciência cidadã colaborativa e como ela tem sido praticada durante a pandemia de coronavírus.

Poderia nos contar um pouco sobre a sua trajetória?

Desde o início da graduação em jornalismo na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo [PUC-SP] sabia que trabalharia com jornalismo de ciência. Desde criança me interesso por assuntos científicos; então me considero privilegiado de ter podido direcionar minha carreira profissional unindo duas coisas que gosto, que é escrever e estar em contato com ciência. Em 2007, no segundo ano do curso, fiz uma iniciação científica sobre a revista Pesquisa FAPESP, publicada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, e aquilo foi, de fato, minha porta de entrada para o universo do jornalismo e da divulgação de ciência e tecnologia. Anos depois, em 2012, recebi um convite da então diretora de redação da revista, a jornalista Mariluce Moura, para integrar a equipe na função de editor-assistente de Política Científica e Tecnológica. Ocupei o cargo por aproximadamente sete anos e desde meados de 2019 sigo como colaborador tanto da revista quanto da Agência FAPESP. Antes de entrar na Pesquisa FAPESP, trabalhei com jornalismo econômico e cobri políticas públicas na agência do jornalista Luis Nassif. Também tive passagens por algumas emissoras de TV. Em 2015, conclui o mestrado em jornalismo científico e cultural no Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo da Universidade Estadual de Campinas [Labjor-Unicamp] e atualmente preparo um projeto de doutorado envolvendo arte e ciência.

Você tem trabalhado intensamente na cobertura da pandemia de Covid-19. Pode nos contar como tem sido trabalhar nessa “linha de frente”?

Tem sido desafiador e, ao mesmo tempo, estimulante. Desafiador, porque em situações emergenciais como essa a produção científica está a todo vapor, gerando dados, levantando hipóteses e subsidiando diretamente tomadas de decisão no mundo inteiro. Mesmo jornalistas com expertise na cobertura científica precisam redobrar a atenção na hora de produzir notícias bem apuradas. Outro obstáculo é que muitas notícias que damos hoje tornam-se desatualizadas amanhã, dada a velocidade com que as informações sobre o novo coronavírus são atualizadas – afinal, estamos falando de um vírus que não era conhecido. O esforço de pesquisa é enorme e há muitos grupos produzindo em universidades e instituições científicas em várias áreas do conhecimento, não apenas nas ciências médicas e de saúde. No meu caso, por exemplo, tenho produzido reportagens que mostram como a comunidade científica tem se organizado para conter o avanço da epidemia, e isso implica acompanhar o que urbanistas e cientistas sociais estão pesquisando sobre a dinâmica da transmissão do vírus nas chamadas áreas precárias dos centros urbanos. A pandemia representa um desafio para todas as áreas do conhecimento. Por fim, o trabalho também é estimulante, porque as reportagens publicadas hoje poderão servir de fonte de informação histórica para gerações futuras de pesquisadores interessados em investigar como o vírus Sars-CoV-2 impactou nossa sociedade. Por isso, além de informações factuais, cheias de dados estatísticos e resultados de pesquisa, o jornalismo científico não pode esquecer de mostrar a ciência como um processo, ou seja, informar em que condições os pesquisadores estão trabalhando, como os estudos são produzidos e quais os obstáculos que hoje encaram por conta da redução de financiamento à pesquisa observado nos últimos anos no país. Concentrar a cobertura jornalística apenas em resultados publicados em artigos científicos é mostrar apenas a ponta do iceberg do que a ciência é capaz de produzir, especialmente em tempos de crise.

Bruno atenta para a visão do filósofo Feyrabend de que a ciência não é autossuficiente. Na obra Ciência e Caridade, de Pablo Picasso, um médico e uma freira protagonizam os cuidados ao acamado.

Em seu mestrado você trabalhou com as propostas de pluralismo metodológico e o questionamento das fronteiras entre ciência e não ciência propostos pelo filósofo Paul Feyerabend. Esses conflitos estão hoje no cerne das disputas narrativas sobre a pandemia. Como você tem compreendido isso?

Penso que a grande contribuição de Feyerabend para a ciência foi defender que o pluralismo de ideias e teorias está na base da concepção de uma perspectiva humanista da ciência. Diferentemente do que críticos de Feyerabend entenderam, o conceito de anything goes não é a defesa de um “vale tudo” na produção do conhecimento científico. Feyerabend era um anarquista, gostava de provocar seus interlocutores e vejo isso com bons olhos, porque não era uma provocação explícita e deliberada, mas ancorada em fatos científicos e históricos. De tudo o que se lê de Feyerabend, o mais importante é extrair a mensagem principal, segundo a qual a ciência não é autossuficiente. Para além das paredes da academia e dos laboratórios, há toda uma abundância de produção do conhecimento que eventualmente pode contribuir para o progresso da própria ciência. São comunidades tradicionais, como povos indígenas e ribeirinhos, que detém conhecimento sólido sobre a natureza e o clima, por exemplo. O pluralismo metodológico proposto por Feyerabend possibilita que diferentes visões possam estar em conflito ou se complementarem. Feyerabend estava mais inclinado à ideia de incomensurabilidade, e eu já falo, digamos, de um estágio à frente disso, pensando de fato na integração entre conhecimentos científicos e não científicos. Evidentemente, para promover essa articulação, não se deve renunciar à aplicação do método científico. Trata-se, no entanto, de tornar a produção científica mais aberta à colaboração de não-cientistas em projetos de pesquisa.

O conflito entre aquilo que é ciência e aquilo que não é considerado ciência está muito vivo nesta crise. Historicamente, nós sabemos que há uma circulação de saberes, de modo que essas fronteiras não são tão delimitadas como alguns defensores de um lado ou do outro gostariam. Acredita que haja alternativas para uma conciliação que seja, neste momento, esclarecedora para a população?

Sim, há muitas possibilidades de articular o conhecimento científico com formas de conhecimento não-científico. Em muitos projetos no campo da conservação ambiental, por exemplo, isso é bem visível e pujante. Há pesquisas, aliás, que só são possíveis se for estabelecida uma parceria entre cientistas e membros de comunidades tradicionais, detentoras de conhecimentos sobre a natureza. No ano passado, por exemplo, escrevi uma reportagem sobre um projeto realizado pelo Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Estudos Interdisciplinares e Transdisciplinares em Ecologia e Evolução, coordenado pelo biólogo Charbel Niño El-Hani, que investiga o conhecimento incorporado em técnicas de pesca em comunidades no litoral norte da Bahia. O grupo de pesquisa defende a ideia de que os saberes tradicionais e científicos podem e devem ser integrados por meio do diálogo e da colaboração entre cientistas e residentes de comunidades locais. Mas reconhece a existência tanto de pontos de convergência quanto de diferenças entre as duas formas de conhecimento. E quando pontos de divergência aparecem, o diálogo torna-se mais necessário. Um exemplo muito interessante dado pelo professor Charbel é o impacto da lenda da Caipora nas comunidades estudadas. O mito da Caipora corporifica um modelo de uso sustentável dos recursos naturais, conseguindo regular a ação das comunidades tradicionais no meio ambiente. Portanto, não interessa saber se, do ponto de vista científico, a Caipora existe ou não. Interessa saber o que há de ciência no conhecimento tradicional e mostrar isso à comunidade local, sem deslegitimar aquela tradição milenar. Voltando para o contexto do novo coronavírus, temos um cenário diferente.

Em meio à explosão da pandemia, os cientistas não vão recorrer aos conhecimentos tradicionais, para testar do zero se uma planta medicinal pode ou não combater o vírus, simplesmente porque há urgência na obtenção de uma solução. Por isso, uma estratégia é apostar no reposicionamento de fármacos, para reduzir custos e tempo de pesquisa, uma vez que as drogas testadas já passaram por testes toxicológicos. Estou falando isso, para mostrar que em alguns casos a pesquisa não comporta a participação de não cientistas, pelo fato de ser tecnicamente muito específica e direcionada para resolver um problema pontual da área médica. Mas, ao mesmo tempo, há muitos estudos sobre planejamento urbano que estão sendo desenvolvidos em parceria com comunidades carentes durante a pandemia de coronavírus, buscando encontrar estratégias locais para prevenir a disseminação do vírus e mapear áreas vulneráveis, onde há falta de abastecimento de água e saneamento básico adequados.

Acredita que cabe aos cientistas denunciar eventuais descuidos do poder público na contenção da pandemia? Ou não devem politizar o discurso?

Creio que denunciar eventuais descuidos técnicos não seja necessariamente politizar o discurso, mas sim apontar falhas na tomada de decisões que não sejam embasadas pela ciência. Quando possível, isso deve ser alertado pelos cientistas. Mas acho que seria muito exigir dos pesquisadores que estão na linha de frente – trabalhando mais de 12 horas por dia, fazendo testes  diagnósticos em meio a um cenário caótico de falta de insumos básicos para pesquisa, como reagentes químicos – que dediquem tempo para monitorar tais descuidos do poder público e emitir alertas. Na minha opinião, essa tarefa cabe aos cientistas que assumiram uma posição mais “diplomática” nessa crise, como diretores de institutos de pesquisa, como o Butantan, em São Paulo, que estão aparecendo constantemente nas diferentes mídias. Incluo na execução dessa tarefa também os divulgadores de ciência. O biólogo Átila Iamarino está ganhando grande projeção nacional ao disseminar diariamente nas mídias sociais o que a ciência tem a dizer sobre o novo coronavírus e a doença Covid-19. O trabalho dele e de vários outros divulgadores científicos não se restringe a apenas comunicar dados de pesquisa, mas também combater a epidemia de informações falsas que circulam na internet e em aplicativos como o WhatsApp. Muita dessa desinformação é propagada pelo próprio presidente da República, o que tem estimulado a própria imprensa a assumir um papel mais decisivo na tarefa de orientar a população. Com todas as ressalvas e críticas que tenho em relação à chamada grande mídia – e são muitas – acredito que, hoje, o Jornal Nacional tem sido mais feliz em alertar a população do que o próprio governo federal. A troca de ministros na pasta da Saúde interrompeu há dias as entrevistas coletivas que traziam dados diários sobre a evolução da Covid-19 no país. Diante desse possível “apagão” de informações oficiais, cabe à imprensa e aos divulgadores de ciência não só coletar e disseminar esses dados, mas apontar os erros das autoridades na condução dessa crise.  

Em caso de uma próxima pandemia mundial, estaremos mais preparados? O que estamos aprendendo com estas tragédias?

Assim como outros setores da sociedade, a comunidade científica global certamente sairá transformada dessa crise. Está claro que o acesso aberto e imediato a resultados de pesquisa é imprescindível para acelerar o avanço do desenvolvimento científico não apenas durante epidemias, mas para enfrentar qualquer problema que afeta a humanidade e o planeta, como aquecimento global, perda da biodiversidade, segurança alimentar e segurança hídrica. Ações que resultem na promoção do acesso aberto a informações científicas e dados brutos tendem a ganhar fôlego nos próximos meses. Paralelamente, tragédias como a epidemia do novo coronavírus, o aumento das queimadas na Amazônia e a elevação das temperaturas médias globais evidenciam a urgência por iniciativas baseadas na solução de problemas concretos. Experiências como ativismo cibernético, mobilização social e movimentos artísticos engajados devem ser vistos como aliados da ciência na busca por tais soluções. A qualidade dos regimes democráticos depende dessa interação interdisciplinar, como forma de garantir maior representatividade nos projetos voltados a desenvolver inovações tecnológicas e sociais. Laboratórios cidadãos, capazes de unir cientistas, artistas, líderes comunitários, organizações não governamentais e movimentos sociais, é um caminho para tornar o conhecimento científico mais próximo do cotidiano das pessoas. E é uma excelente oportunidade para os pesquisadores pautarem seus projetos com base em iniciativas já desenvolvidas localmente por não-cientistas. Espero que num futuro próximo o termo “leigo” seja extinto no meio acadêmico, afinal todos somos leigos em alguma coisa. O impacto da ciência na sociedade pode aumentar quando entendermos que grandes desafios, como a epidemia do novo coronavírus, precisam ser atacados de maneira colaborativa, multinível, envolvendo diversos atores sociais.

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