O futuro do futuro

substantivo masculino

1.tempo que se segue ao presente.

2.conjunto de fatos relacionados a um tempo que há de vir; destino, sorte.

Sinônimos: posterior, consecutivo, consequente, decorrente, seguinte.

         Apesar de não estarem incorretas, as definições superficiais da ideia de futuro, seguem todas a mesma linha: a ideia de que o tempo é uma narrativa linear e positiva, de uma sequência de acontecimentos ordenados em três categorias básicas: passado, presente e futuro. Não é preciso mais do que uma noite de insônia para perceber que o passado e o futuro não existem no mundo real. A realidade é um presente esmagador, do qual não se pode fugir, nem avançando nem retrocedendo. Se não podemos viajar para o passado ou para o futuro, onde esses tempos existem? Serão realidades paralelas, apenas esperando sua vez de acontecer? Bom, podemos sentar e esperar o futuro chegar… ou não? Paradoxalmente, o futuro nunca chega, porquê quando chega, se torna presente.

Bom, se o passado e o futuro são abstrações, pelo menos, sobra o presente, certo? Mas se o presente é tão fluido, como é possível captura-lo? Se o presente fosse estático, como um quadro, talvez não fosse possível confundi-lo com o passado e com o futuro, mas ele é dinâmico. O presente é uma realidade histórica, um mundo físico em transformação de que fazemos parte. Apenas o presente pode ser experienciado. O futuro já não: ele é o universo de possibilidades que habita o presente, uma abstração, um filho rebelde da imaginação. O futuro é tudo aquilo que a tecnologia, a cultura, a política e todas as condições físicas, geográficas, climáticas, permitem que a humanidade conquiste. O futuro é a síntese da crítica e das possibilidades do tempo presente, logo, ele é político.

         O futuro tem encantado gerações sem fim, trazendo uma promessa de melhora, de justiça, de dias menos defeituosos e sofridos. Nossos estereótipos do futuro, variam. Há quem vislumbre um cenário de paz, tolerância, riqueza, abundancia, conforto e tecnologias que nos permitem explorar o fundo do mar e o espaço sideral. Antropologicamente falando, talvez poucas características e habilidades do gênero humano tenham sido tão cruciais para a construção de uma realidade subjetiva cada vez mais complexa, ideias cada vez mais abstratas, e até o planejamento necessário para construir todas as civilizações humanas que já existiram, do que a habilidade de imaginar o futuro. O grau de previsibilidade sobre o futuro, na verdade, tende a ser um importante critério epistemológico na construção de um corpo de conhecimento. Uma boa teoria é aquela que é constantemente confirmada pela realidade.

A ciência é até hoje, a melhor forma que temos de prever o futuro. Articulada com a tecnologia, pudemos prever até mesmo quanto tempo o sol vai brilhar no céu, e nos arriscamos até a debater sobre como o universo vai morrer. Não seria muita pretensão? Talvez, mas há uma grande diferença entre prever a morte do sol e a próxima explosão nuclear usada em guerra, apesar de ambos eventos remeterem as mesmas forças e possam ser explicadas pela mesma física atômica: A morte do sol não é política, a próxima bomba é. A mesma tecnologia que permite tantas especulações, um universo tão vasto de possibilidades benignas para a humanidade, também pode causar dor, sofrimento e danos permanentes em civilizações inteiras. O que varia entre uma opção e outra, é a intencionalidade do uso da tecnologia, sua dimensão política.

Uma video-chamada retro-futurista

A tecnologia aliás, aparece na nossa imaginação como o elemento de maior destaque. Sempre imaginamos o futuro referenciados por nossa própria época. O interessante desses desenhos de 1899, de um ensaio chamado “o ano 2000” de Jean-Marc Cote é que certas coisas já faziam parte do anseio imaginativo humano, mas não era possível imaginá-las fora dos moldes daquele tempo. Foi possível imaginar uma vídeo-chamada, mas não sem fio. Um ônibus aquático aparece como alternativa para os navios, mas é puxado por uma baleia Jubarte. Os desenhos nos fazem pensar os limites da nossa própria percepção do futuro.

Um ônibus movido a baleia (o motor a combustão já existia)

         Outros artistas que ousaram especular sobre o que há por vir, foram ainda mais longe: extrapolaram o futuro histórico e se debruçaram sobre o futuro profundo. Escalas de tempo profundo são aquelas que se desenvolvem na medida dos milhões ou bilhões de anos. É o tempo das rochas, dos continentes e das espécies. Dougal Dixon ilustrou o livro “After man- a zoologia of the future” (Depois do homem- a zoologia do futuro), em 1981. O resultado é surpreendente. Tamanduás e Hipopótamos aparecem com mais adaptações aquáticas, roedores são representados ocupando diversos nichos diferentes, como carnívoros e animais de pastagem.

O hipopótamo e o tamanduá aquático de Dixon.

Dougal argumenta que o contexto de sua obra, é em um mundo altamente impactado pela perda de diversidade biológica provocada pelas antigas sociedades humanas, situado daqui a 50 milhões de anos.

Na imaginação de Dixon, os roedores ocuparão a maioria dos nichos terrestres em 50 milhões de anos

         Se prever o amanhã já parece tarefa impossível, porque então, tentar imaginar nosso mundo em 50 milhões de anos? O que há de tão especial no futuro? Além de uma enorme causa de ansiedade, o futuro também é um conceito em debate. Muitas pessoas não acreditam no futuro. Vivemos em uma civilização altamente referenciada por valores morais cristãos, cujo cerne, a ideia de salvação, inclui um momento de tribulação na história, com pestes, guerra, terremotos, fome, antes da volta do messias, que vai culminar no fim do mundo e da história, para a passagem de uma realidade transcendental eterna e perfeita (ou seu inverso). Essa ideia especificamente, anula o futuro. Todas as sociedades que viveram essa espera identificaram nas suas épocas, todos os sinais do apocalipse, em consequência, enquanto espécie, não temos tido uma visão de longo prazo em relação a nossa existência: basta olhar para nosso império econômico vigente, baseado em um crescimento econômico infinito, fundado na exploração de recursos naturais não-renováveis ou cíclicos.

A composição da luta social é em grande parte, a imaginação de um futuro possível, no inédito viável, uma esperança utópica que é imaginação criativa em favor de um mundo menos defeituoso, fundada na fé na possibilidade concreta de mudança e de melhora, mas igualmente fundada na assunção da tomada de responsabilidade histórica dos humanos na busca ativa, radical e compromissada com a transformação da realidade injusta percebida. Acreditar no futuro, portanto, não é banal, passa a ser um imperativo existencial, um compromisso ético e amoroso pra com a humanidade, e uma insistência nas possibilidades utópicas que nossa imaginação permite vislumbrar. O nosso fatalismo apocalíptico imobilista precisa ser debatido. Nosso “fazer o quê?” precisa se tornar um que-fazer, no sentido de uma crítica propositiva as estruturas que agem como a vanguarda da retaguarda.

Abe Pedra, Maio de 2020

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