disrupção e automação

Por Abner Santos

Esses dias vi uma série de imagens que ficou na minha cabeça. Eram tecnologias digitais contemporâneas, repensadas em suas formas analógicas. Procurando ensaios parecidos, encontrei três muito interessantes, todos eles adaptando o Facebook, o Spotify, o Twitter, Netflix e tecnologias afins para como seriam 20 anos atrás. Os artistas que criaram as imagens são Sheng Lan, Thomas Oliver e Luli kibudi. E apesar das imagens serem interessantes, não foi isso que me bugou: e sim pensar que eu (pra quem não sabe, tenho 24 anos) ainda tenho familiaridade com esses equipamentos analógicos.

Será que essas mudanças aconteceram rápido demais?

Não que eu seja novo demais para experienciar qualquer mudança tecnológica: duas décadas de desenvolvimento são bastante significativas para o tempo de hoje, mas nem sempre foi assim. Um camponês na Polônia do século XVI que viajasse 40 anos no futuro, não teria grandes problemas para se adaptar às novas tecnologias. Muito pouco teria mudado. Já um viajante dos anos 80 que presenciasse nosso modo de viver, ficaria no mínimo espantado.

A wikipédia contém mais informação do que seria possível em uma enciclopédia publicável.

A Wikipédia é um grande exemplo de como o acesso ao conhecimento se transformou. Muitos de nós chegamos a fazer trabalhos escolares simples gastando horas e horas em bibliotecas procurando o trecho certo do livro certo, ou folheando imensas enciclopédias que forneciam pouco mais do que definições breves. Hoje, a Wikipédia é o maior empreendimento coletivo humano na produção de uma coletânea de definições e informações rápidas e acessíveis sobre praticamente qualquer assunto. Tudo isso instantaneamente, com buscas a partir de palavras chave. O que se torna um desafio para a escola, uma vez que a disponibilidade desse tipo de tecnologia torna obsoleta a cultura da memorização superficial que vigora até hoje nos métodos hegemônicos de ensino.

Luli Kibudi, designer gráfico, nos fez lembrar que antes do e-mail, essa era uma das formas mais eficientes de comunicação.

Esta carta com o logo do Gmail é um lembrete claro da principal mudança que ocorreu com o advento da rede mundial dos computadores: a desmaterialização do espaço e do tempo. Isso significa que nossas noções de distância e de duração foram profundamente alteradas. Uma loja, agora pode estar aberta 24 horas em todos os lugares do mundo ao mesmo tempo, sem as custosas preocupações com todas as limitações das lojas físicas. Uma carta poderia ser entregue instantaneamente, a qualquer distância. Essa nova possibilidade elevou a produtividade das empresas que se inseriram nessas tecnologias, formando uma nova elite tecnológica, tão poderosa, que seus valores superam o PIB da maioria dos países. O faturamento da Amazon é maior que o produto interno bruto do Brasil.

Obras de Luli Kibudi

Chamamos essas empresas de indústrias do conhecimento. Elas foram capazes de produzir as pessoas mais ricas da história e tornaram os dados eletrônicos mais valiosos que a terra, o ouro e o petróleo. Pela primeira vez na humanidade, o bem mais valioso é imaterial. De que formas isso muda nossas percepções de valor, riqueza e trabalho? Só estamos começando a compreender essas mudanças, para que possamos nos apropriar dessas tecnologias, denunciando os maus usos e anunciando formas de apropriar esses ganhos de produtividade para as maiorias da população, que padecem em uma profunda e esmagadora desigualdade que só tem se acentuado. Chamamos esse novo estado de coisas de economia do conhecimento.

A internet teve um efeito disruptivo na sociedade e na organização econômica. Disrupção tecnológica é um processo em que a introdução de uma nova tecnologia nas práticas produtivas tem uma consequência imensa na transformação dos modos de fabricar e consumir, sempre movidos pela busca incremento de produtividade, ou seja, produzir mais riqueza com menos trabalho. O motor a combustão foi disruptivo, a eletricidade foi disruptiva, até mesmo o simples arado de ferro, no inicio da idade dos metais, foi disruptivo, porque permitiu que as sociedades agrícolas primitivas obtivessem excedentes que foram responsáveis pelo desenvolvimento do comércio e das próprias civilizações. De certa forma, o arado de ferro foi mais disruptivo do que o motor a combustão.

Obras de Sheng Lan

Mas na época ninguém imaginava que o arado de ferro pudesse dar início a uma civilização que em poucos milênios pisaria na lua. As consequências da disrupção tecnológica não são óbvias para quem vivencia a criação, disseminação e aprofundamento dessas novas tecnologias. Para nós, é mais imprevisível ainda. Essas novidades se desenvolverão na interação com uma crise ambiental e climática sem precedentes, fazendo com que nós, no despertar do século XXI, estejamos em um momento muito delicado de nossa história. Podemos pela primeira vez imaginar uma realidade pós-trabalho, em que o ser humano médio pode se ocupar com as artes, a filosofia, a música, a ciência, sem a sombra mórbida da fome caso não consiga vender sua força de trabalho. Segundo Mangabeira Unger, numa economia perfeita, ninguém deveria estar condenado a fazer um trabalho que uma máquina pode fazer. Ele defende o aprofundamento da automação, e a criação de novas institucionalidades que deem conta de produzir bem-estar a partir dessas tecnologias, ao invés de pobreza e desespero.

Obras de Thomas Oliver

A automação, em si, não é nada nova. As atividades econômicas e o desenvolvimento das sociedades tem interagido com os efeitos disruptivos da automação já faz tempo. No início do século XX, na medida em que os países se adaptavam as novas formas de produzir no campo, eles se urbanizavam e se industrializavam. Foi necessário um incremento de produtividade na agricultura para produzir a sociedade industrial moderna na Europa. No Brasil da década de 40, mais de 70% da população vivia no campo. Em 2020, apenas 13% estão nas zonas rurais. Essa transformação dependeu de um processo brutal de êxodo rural, que permitiu o surgimento de um Brasil com mais professores, advogados, burocratas, operários. A taxa de natalidade por mulher caiu de 6 para menos de 2. São mudanças grandes demais para serem ignoradas, todas, em última análise, consequências de uma disrupção tecnológica.

É interessante pensar onde as mudanças que estamos vivendo hoje nos levarão. Uma onda de automação que nos atingiu nos anos 70 e 80, introduziu robôs capazes de interagir com o mundo físico, fazendo trabalhos extremamente precisos de forma rápida e incansável, mas a nova onda de automação tem a ver com a inteligência artificial e os algorítimos, estes tem um poder maior ainda de penetrar nossas vidas e mudar o rumo das coisas.

Não só essas mudanças foram rápidas demais, como também grandes demais. E elas estão prestes a se aprofundar.

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