A imersão auto-sensível de um cientista enclausurado em sua disciplina

Por Leonardo Oliveira

A ciência tem limites. A razão tem limites. Limites distintos daqueles explorados pelas emoções, pelos sentimentos e pela espiritualidade. Na verdade a ciência está exclusivamente preocupada em gerar compreensão sobre a realidade concreta, sensível, observável, passível de experimentação. Pouco se importando e até mesmo negando questões metafísicas.

Mas enquanto cientista algumas questões têm crescido entre as minhas preocupações: Qual o papel das minhas emoções no meu trabalho acadêmico? De que forma e em que medida meus sentimentos exercem influência sobre minha prática de pesquisa? Quais as consequências da minha espiritualidade sobre a ciência que estou produzindo? 

Enquanto modalidade o conhecimento científico não prevê e até rechaça a “interferência” da espiritualidade, das  emoções e dos sentimentos sobre seus processos de produção. Estes fatores podem invalidar ou enviesar os resultados. Entretanto, percebo que esses três elementos não são variáveis isoláveis e sim constantes inerentes da condição humana. Mesmo assim, em muitas disciplinas o distanciamento do objeto estudado, inclusive do ponto de vista afetivo, emocional e sentimental, é imprescindível. 

Fiquei bastante desgostoso quando percebi como o disciplinamento da biologia ocasionou a supressão da minha sensibilidade.

Quero dizer, se a emoção, o sentimento e a transcendentalidade são elementos ontológicos, negar ou tentar controlar a interferência destes fatores sobre o conhecimento científico que produzo é mera ilusão ou ingenuidade da minha parte. Me vi, mais uma vez, reproduzindo tacitamente uma pretensão moderna positivista que, como tantas outras, depois de séculos em exercício têm sua improficuidade escancarada.

Esvaziar a ciência de sensibilidade, emotividade, afetividade e transcendentalidade acaba criando, por exemplo, aberrações como a necessidade de discutir a humanização da medicina e o termo parto humanizado.

Não se trata de reinventar a roda na ciência ou fundar uma epistemologia transcendental do jovem místico que valorize a onipresença das emoções e dos sentimentos. Estou explorando alternativas entre a fenomenologia e a pós-modernidade como um exercício de humildade intelectual. De entender quais são as reflexões que a própria ciências já produziu para lidar com essa minha inquietação que não é inédita, mas permanece mal-resolvida. 

Entre as inúmeras forma de sentir e interpretar a realidade, entre as inúmeras lentes possíveis através das quais podemos observar o mundo, precisamos entender que a racionalidade não é o único meio válido ou legítimo. Entre a epistemologia e a gnosiologia são muitas as vertentes, cada uma delas repleta de méritos, legados e também com seus limites, métodos e preocupações que lhe são próprias.

Permanece, de toda forma, inconclusa a (in)definição e a (in)existência de conceitos tão banais como verdade e realidade. Talvez esta seja, afinal, uma discussão sobre fé e paixão. Sobre o que é capaz de conquistar o nosso coração e sobre o que a gente escolhe acreditar.

Estou tateando e, embora ainda longe de perceber os contornos das respostas capazes de satisfazer às indagações do primeiro parágrafo, estou disposto a experimentar como minhas emoções, meus sentimentos e minha espiritualidade estão implicadas na ciência que produzo e construo. Tendo certa consciência da complexidade de tal empreendimento, acredito que não haverá resposta final ou definitiva.

Por isso, não pretendo dar um sentido a este processo, que não é uma tentativa de compreensão. Na verdade, meu esforço aqui será, de certa forma, avesso à ciência. Este é um lugar de me permitir sentir a ciência que faço, me emocionar com ela e, porquê não, compreendê-la num panorama transcendental.

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