Por uma ciência livre

Abner Santos

Tenho me policiado muito para parar de me referir às ciências no singular: afinal, a “Ciência”, enquanto uma generalização que implica em um corpo de conhecimento ou método único, é algo que não existe.

É preciso considerar que ao fazer ciência o método e a temática são indissociáveis. Por isso, diferentes objetos de estudo recebem tratamentos completamente diferentes.
Não podemos estudar elétrons e saúde mental com os mesmos equipamentos e métodos. Em uma análise fria e aprofundada, percebemos que, na verdade, as muitas ciências não têm uma estrutura em comum e constantemente estão em contradição com sistemas bem fundamentados e consensos estabelecidos em outras áreas.

A ciência, por ser parte da cultura humana, tem História.
Ou seja, se transforma ao longo do tempo e espaços (mais do que muitos profetas da verdade gostam de admitir) e segue tendências filosóficas e metodológicas que não são fixas.

Até o final do século XIX, por exemplo, era comum que os intelectuais e cientistas se debruçassem sobre questões amplas e fundamentais, tal como a pergunta de Darwin sobre o que explicaria a assombrosa diversidade da vida na Terra.

Darwin, assim como quase todo cientista que revolucionou o pensamento humano, atuou contraintuitivamente, desafiando os consensos da época. De acordo com Feyerabend “a ciência é um empreendimento essencialmente anárquico: o anarquismo teórico é mais humanitário e mais apto a estimular o progresso do que suas alternativas que apregoam a lei.”

Com “a lei” Feyerabend quer dizer um pensamento cartesiano e reducionista que procura impregnar os produtos da ciência com a irrefutabilidade da matemática, dando a essas informações uma legitimidade de verdade científica.

Para os cartesianos, as medidas matematicamente compreensíveis devem ser a base de qualquer estudo, usando os números como um tipo de refúgio lógico inquestionável. Para os reducionistas, a natureza deve ser compreendida a partir de suas mais minúsculas partes, sendo que a soma das partes pode ajudar a compreender o todo.

Por essas tradições que se estabeleceram fortemente nos últimos séculos é mais provável que um biólogo esteja hoje ocupado com a evolução das nervuras de uma asa de mariposa do cerrado do que tentando relacionar com a origem da diversidade da vida de maneira mais ampla e geral.

Pode-se argumentar que isso não é mais relevante cientificamente porque esta seria uma questão mais geral com relativo consenso estabelecido e não parece estar vulnerável aos questionamentos fundamentais. Mas isso também era verdade na época de Darwin.

Stephen Jay Gould foi um dos maiores nomes do pensamento evolutivo, mas sua curiosidade ampla o levou a debater temas das mais variadas naturezas. Constantemente compreendia e explicava o mundo a partir de muitos pontos de vista diferentes, nunca se limitando ao olhar biológico ou se abstendo de fazer generalizações. Uma forma de polimatia, como ele mesmo dizia.

Gould compreendeu as profundas limitações que um olhar cartesiano e reducionista trazia para a história do conhecimento e em seu livro “Seta do tempo, ciclo do tempo- mito e metáfora na descoberta do tempo geológico” ele argumenta:


“A ciência talvez difira das outras atividades intelectuais por concentrar-se na formação e operação de objetos naturais. Mas os cientistas não são máquinas robotizadas de indução, inferindo estruturas explicativas somente das regularidades observadas nos fenômenos naturais (pressupondo-se que esse tipo de raciocínio possa em princípio ser bem-sucedido, o que eu duvido muito). Cientistas são seres humanos, imersos numa cultura, e debatem-se com todos os curiosos instrumentos de inferência que a mente permite- da metáfora e da analogia a todos os vôos da imaginação.”

Criatividade e imaginação podem parecer elementos mais valiosos para a atividade artística do que a científica mas, segundo Gould, esses dois conhecimentos também não são distantes e constantemente operam juntos para produzir nossos entendimentos sobre a natureza. Grande parte da legitimidade e do status de pretensa verdade absoluta que a ciência goza hoje é devido a um método que supostamente isola nossas preferências políticas enquanto seres históricos e nos levaria à uma análise objetiva e imparcial dos nossos objetos de estudo. Mais especificamente, consistiria em:

Observar objeto > delimitar questionamentos > levantar hipóteses > testar hipóteses > rejeitar as hipóteses que não coincidem com os resultados experimentais > levar em frente as que tem algum poder de previsibilidade sobre os fenômenos.

Se levado a sério, esse método infalível nos levaria a encontrar a verdade do universo, onde quer que ela esteja, correto?

A História mostra que não é bem assim.

Lembremos do médico húngaro Ignaz Sammelweeis, internado em um manicômio em decorrência de sua insistência na necessidade de lavar as mãos nos hospitais para evitar mortes por infecção puerperal. Afinal, nos insalubres hospitais do século XIX – antes da microbiologia e do conhecimento sobre os germes- não era óbvio que os instrumentos cirúrgicos deveriam ser cuidadosamente lavados e esterilizados. Até mesmo o ato de lavar as mãos era motivo de disputa e controvérsia.

Não é preciso dizer que as mortes por contaminação eram abundantes e banais. O que então explicava a razão dessas mortes era o paradigma miasmático, consolidado desde o século XVII. Estes miasmas seriam como um conjunto de odores fétidos provenientes de matéria orgânica em putrefação nos solos e lençóis freáticos contaminados. Um fenômeno atmosférico invisível, algo que existia no ar e teria relação com as patologias.

No período da disputa entre a teoria bacteriológica e miasmática para explicar as causas das infecções, negar a existência dos miasmas era considerado um absurdo negacionista, bem como defender a existência dos microorganismos parecia praticamente um delírio.

Justamente por serem históricas é que as ciências são feitas de exemplos como este no qual as “verdades” que a ciência produziu estavam completamente embebidas do contexto cultural, econômico e político de sua produção, assim como dependeram e sempre dependerão intimamente das condições do trabalhador científico e dos equipamentos tecnológicos disponíveis na época.

Ou seja, do mundo que é possível em determinado contexto.

Deixe uma resposta