O Brasil visto do espaço: Para entender o desmatamento

Por Abner Santos

Nos tornamos indiferentes ao desmatamento.

A perda e a degradação de todos os nossos biomas se tornou uma fatalidade, uma morbidade sempre presente nas notícias, mas da qual nos desafetamos, em muito por não acreditarmos que seja possível pará-la, muito menos revertê-la.

Pergunte a si mesmo, com sinceridade: você realmente acha que seja possível parar este processo? E revertê-lo?

Se sim, como?

São essas as perguntas que me faço e que motivaram esse texto.

Precisamos contribuir para o ambientalismo mais criticamente do que apenas destacando a beleza da natureza. Não que seja um empreendimento fútil, longe disso, mas a mera simpatia pelos animais e plantas, ou sensibilização do público não orienta politicamente para atacarmos as causas da destruição; não fornece uma percepção estratégica do problema, nem de sua resolução.

Então, comecemos do início.

Usei a ferramenta de imagens históricas do Google Earth Pro para fazer comparações que possam demonstrar as profundas transformações que nosso território passou nos últimos anos. Inspirado em Carl Sagan, que compreendeu o poder e o potencial de mudança contido na visão da Terra do espaço, vou invocar este recurso para ilustrar a gravidade da situação.

O arco do desmatamento

Este é o arco do desmatamento. Ele é a fronteira da civilização, uma região imensa que chamamos de zona de amortecimento da floresta.

É aqui que estradas são abertas e se irradiam em um padrão de “espinha de peixe” para regiões antes intocadas (pelo colonizador) da floresta. Essa região é mais seca, mais vulnerável ao vento, a incêndios e espécies invasoras do que o interior da mata. Quanto mais recortada a floresta, mais frágil ela se torna. Nestas regiões a caça e o consumo de carne animal silvestre é muito comum, o que nos expõe a novas variedades de vírus zoonóticos, aumentando as chances de ocorrência de pandemias como a que vivemos agora.

Se pudéssemos recuperar imagens históricas ainda mais antigas do Brasil, perceberíamos que esse arco é muito antigo: começou a se espalhar dos litorais, em direção ao interior, e demorou cinco séculos para adentrar significativamente a região amazônica. De certa forma, o que estamos vendo hoje é a mera continuidade de um empreendimento colonizador, que se manteve constante por mais de quatro séculos, e agora (nas últimas quatro décadas) se intensificou rapidamente.

Padrão de desmatamento “espinha de peixe”

É aqui que acontece o extrativismo madeireiro mais primitivo. Em Rondônia, por exemplo, é possível comprar terrenos com centenas de hectares pelo preço de um terreno no interior de São Paulo que ninguém acusaria de ser grande. Mas é claro que apenas os mais cuidadosos se dão ao trabalho de comprar estes territórios, sendo que a grande maioria apropria-se criminosamente, explora sem autorização, e eventualmente, reivindica legalmente as posses, num processo que chamamos de grilagem, uma fraude muito comum de documentos de posse de terras.

Essa atividade é tão rentável e superavitária porque o próprio preço do terreno se torna meramente simbólico, mesmo em comparação apenas com sua atividade inicial, que seria a exploração da madeira ou “limpeza”. O terreno, uma vez limpo, pode servir tanto para a pecuária quanto para a especulação imobiliária.

O desmatamento fez a fortuna fácil de uma elite imobiliária fraudulenta e pouco produtiva.

1985 e 2020

A floresta tropical amazônica é o ecossistema mais produtivo do planeta. Produtividade é um conceito ecológico que mede quanta biomassa é produzida por um bioma em um intervalo de tempo, e em um determinado espaço. As árvores desta região se organizam em camadas, desde os arbustos mais baixos, que recebem pouquíssima iluminação, até a copa da floresta, que tem em media de 35-40 metros de altura, com algumas árvores despontando a mais de 80 metros de altura.

Uma vez destruída, a floresta pode levar séculos ou até milênios para chegar ao seu ponto clímax (momento de relativa estabilidade ecológica), em que o sistema chega em seu aproveitamento máximo de energia. Isso significa que projetos de reflorestamento precisam ter uma visão de longo prazo e atravessar muitas gerações. Um pedaço da floresta amazônica que foi derrubado em 1500, se deixado abandonado por toda a história do Brasil, ainda não seria idêntico ao que era (E nunca será).

Os efeitos da diminuição da área da floresta tropical podem ser sentidos em toda a América do Sul, principalmente climaticamente. A latitude média, atravessada pelo trópico de Capricórnio, é uma região árida ou desértica em todos os continentes, com exceção da América do Sul. A região que envolve o sudeste, partes do sul e do centro-oeste brasileiro é chamada de “quadrilátero afortunado” por receber uma quantidade muito maior de chuvas do que esperado para esta região do planeta.

imagem cortesia do projeto @arvoreagua no instagram

A região do quadrilátero afortunado é responsável por 70% do PIB do país, o que ajuda a entender os graves efeitos econômicos das secas cada vez mais constantes e prolongadas.

A cordilheira dos Andes contorna toda a costa oeste sul- americana, agindo como uma parede geológica que aprisiona o vapor de água no interior do continente. Quando o calor do sol tropical aquece as águas do oceano atlântico, grandes nuvens de chuva são carregadas em direção a região amazônica. Os ventos continuam a soprar para o oeste e são direcionados para o sul quando encontram a cordilheira.

A água que cai na floresta rapidamente retorna para a atmosfera na forma de transpiração, tornando a Amazônia uma grande bomba de umidade para o sul do continente. Essa corrente de nuvens transportada para o quadrilátero afortunado é chamada de Rios Voadores, e eles superam em muito a quantidade de água que corre pela superficie.

O desmatamento está desestruturando este sistema climático, secando o resto do Brasil. Os incêndios no Centro-Oeste estão se tornando um processo irreversível e autoperpetuante, num ciclo retroalimentativo em que as queimadas destroem vegetação, que torna os ambientes mais secos, logo, mais vulneráveis a incêndios, que destroem mais vegetação.

É possível ver uma imensa quantidade de vapor de água se deslocando para o sul. Aplicativo “earth now” da NASA, onde é possível acompanhar ao vivo uma série de sinais vitais do planeta

O Pantanal e o Cerrado, já muito ameaçados pela monocultura, são os mais afetados pelos incêndios, e são os biomas com a maior taxa de perda de solo para a desertificação. Muitos anos de pecuária extensiva e monocultura destroem a capacidade do solo de se renovar naturalmente, seus nutrientes são lavados pelas chuvas e drenados pelas plantações sem a devida reposição via decomposição de matéria orgânica. O que sobra do solo é uma areia ou argila impermeável e infértil. São necessários muitas décadas, ou em muitos casos, séculos, para que esse solo se recupere através dos processos naturais de sucessão ecológica dos vegetais.

É possível fazer várias comparações e analogias que nos ajudam a visualizar a extensão do território perdido e a velocidade da perda.

Em campos de futebol por hora, por exemplo, são mais de mil.

Uma cidade de Campinas por mês.

139 hectares por hora

Como chegamos à esta situação?

Trinta e cinco anos nos separam do fim da ditadura civil- militar brasileira. O começo do regime que perseguiu, matou e torturou se deu em um momento muito prodigioso e estimulante da economia do nosso país. Apesar da tentativa de responsabilizar os militares pela prosperidade econômica, foi por questões globais do pós 2° Guerra que crescíamos como nenhum outro país do mundo. Nosso PIB aumentava a uma média de 6% ao ano, com alguns picos em que chegamos a crescer 10% (O que já era verdade antes do golpe).

Esse profundo e acelerado processo de industrialização urbanizou o Brasil à força, deslocando imensos contingentes de populações rurais de suas propriedades e alocando toda essas pessoas em cidades com pouco ou nenhum planejamento para recebê-las. Milhões de famílias que viviam da agricultura familiar migraram para as cidades, onde não tinham terras para plantar, ficando cada vez mais dependentes do mercado e da lógica de trabalho assalariado.

Apesar do colapso infraestrutural que resultou desse intenso êxodo rural, a elite pode tirar um grande proveito da situação. De um lado, as grandes corporações do agronegócio ganharam espaço expulsando os agricultores familiares, de outro, a burguesia industrial pôde pagar salários baixíssimos devido à imensa e crescente oferta de força de trabalho. Nossa civilização aprofundava-se rapidamente em um modelo com dois componentes interdependentes e igualmente insustentáveis: a urbanização caótica e a monocultura extensiva.

Pintura que ilustra a capa do livro “Metrópoles: cidadania e qualidade de vida” de Julia Alves

Na passagem da década de 70 para a de 80, esse projeto desenvolvimentista alinhado aos EUA perdeu sustentação. Passamos a crescer entre 2 e menos de 2% ao ano a partir de 1980. Em 5 anos a ditadura teve um fim e, desde então, todos os governos tiveram dificuldades para implantar projetos em prol do Brasil. A democracia era um sonho fértil de prosperidade e bem-estar que nunca foi entregue. A indústria brasileira perdeu força.

Em 1970, O Brasil disputou (e venceu) a copa do mundo no México. A música tema da época denuncia algo que pode ajudar a explicar o que aconteceu conosco.

Noventa milhões em ação
Pra frente, Brasil
Do meu coração

Todos juntos vamos
Pra frente, Brasil
Salve a Seleção!

De repente é aquela corrente pra frente
Parece que todo o Brasil deu a mão
Todos ligados na mesma emoção
Tudo é um só coração!

Mesmo quem não estava vivo na época se lembra dessa.

Hoje já seríamos 210 milhões em ação.

Em 50 anos nossa população mais que dobrou. Nossa evolução demográfica variou muito durante o século XX: em 1900 éramos 17 milhões, em 1960 nossas mulheres tinham em média seis filhos e hoje, 2020, a média é 1,60. Em cem anos multiplicamos por 12 nossa população.

Ao mesmo tempo que crescíamos em número, parte significativa da população brasileira se tornava menos miserável e cada vez mais apta a praticar um elevado e sofisticado padrão de consumo, este incentivado pela influência cultural estadunidense e européia. Mas ao passo que tínhamos muitos filhos e queríamos coisas mais bonitas e mais modernas, nos desindustrializávamos (o que ajuda a explicar a desaceleração do crescimento).

Em 1980, por exemplo, o Brasil era mais próspero industrialmente do que a China, que hoje está a caminho de se tornar a maior economia do planeta.

Nesse meio tempo uma revolução tecnológica aconteceu e nos tornamos cada vez mais dependentes de uma série de equipamentos que o Brasil não produz.

A imaturidade tecnológica do Brasil, associada a sua desindustrialização constante colocou nosso país em uma posição muito delicada do ponto de vista da organização internacional do trabalho, em um contexto em que a expectativa de consumo é globalizada, mas as condições de produzir, não. Hoje queremos ter o mesmo iphone que um estadunidense, no mesmo ano de lançamento, e pagamos proporcionalmente muito mais caro por isso.

Participação da indústria no PIB do Brasil ao longo do tempo.

A conta de anos e anos do consumo brasileiro baseado na importação em dólar foi paga pelo agronegócio. Voltamos a ser, basicamente, uma fazenda. Uma nação agroexportadora altamente dependente da exportação de commodities – produtos pouco transformados extraídos da riqueza fácil da natureza, principalmente a soja, carne de boi e minério de ferro bruto. Na prática, exportamos a matéria prima para importar a tecnologia. E pagamos com soja.

Como uma das consequências, Rondônia, um dos estados recordistas em desmatamento, perdeu em floresta o equivalente a metade do território em 35 anos. Definitivamente, aumento populacional, aumento de expectativa de consumo e desindustrialização não combinam, principalmente em um cenário internacional de revoluções tecnológicas de caráter permanente.

A consequência da imaturidade tecnológica do Brasil pode ser vista do espaço.

Não existe nenhum sinal de que nos próximos 40 anos nossa população nacional possa decrescer. Há sim sinal de que vamos desacelerar o crescimento populacional e econômico rapidamente, mas em termos populacionais ainda crescemos constantemente. Também não há nenhum sinal de que nos conformamos com um antigo padrão de vida. Na verdade, queremos elevá-lo, e merecemos elevá-lo, apesar da urgência em mudar radicalmente a qualidade nosso consumo material.

Se é assim, que alternativa temos?

Para pensar sobre isso, creio que pelo menos quatro coisas devem estar claras para o ambientalismo crítico:

1- O Brasil precisa retomar um projeto desenvolvimentista que privilegie a indústria ao agronegócio, de forma a diminuir nossa dependência tecnológica do exterior e econômica do agronegócio. Temos muitas pautas do século XIX para resolver, mas precisaremos dos recursos do século XXI para isso. Não existe perspectiva de mitigar o desmatamento, ou mesmo revertê-lo, sem pensar na industrialização do país que, é claro, envolve uma dose cavalar de rebeldia geopolítica.

2- A reforma agrária associada à uma reforma urbana poderia ser uma aliada muito poderosa na recuperação dos ecossistemas e, de quebra, produzir segurança alimentar via autonomia produtiva. Temos o conhecimento de sistemas agroflorestais sintrópicos altamente tecnológicos que podem se aplicar a 80% do território nacional. É possível através de programas e leis tornar a recuperação de áreas degradas altamente lucrativa e produtiva, associando isto a um ousado projeto de habitação.

3- Os países desenvolvidos tem que pagar pelo reflorestamento. A recuperação de florestas tropicais é a forma mais efetiva conhecida de capturar e aprisionar carbono atmosférico na forma de biomassa. O Brasil, mais do que nenhum outro país na Terra, pode fazer bom uso de políticas como a de crédito de carbono e afins, oferecendo serviços ecossistêmicos aos países que mais poluem. Nenhum outro lugar do mundo tem uma área tão imensa de ecossistemas tão ricos e produtivos, portanto, o Brasil é indispensável e estratégico na superação da crise climática que atravessamos

4- O Brasil e o mundo precisam de um generoso programa de incentivo a tecnologia que possibilite a transição para um novo padrão de consumo mais sustentável, que por sua vez, seria implementado através de um novo marco regulatório dos materiais. Não é razoável imaginar que podemos melhorar nossas qualidades de vida e aumentar o poder de consumo de forma sustentável sem deixar de operar de forma linear-cumulativa. Esse marco deveria incluir a proibição de plásticos de uso único, o incentivo a embalagens retornaveis e a coleta seletiva. O que mais uma vez, contradiz os interesses econômicos da mineração e da industria do petróleo.

O que me dá esperanças é saber que as condições tecnológicas para a superação dessa tragédia estão disponíveis. Já as condições políticas, sempre podem ser construídas. O que precisa estar cada vez mais claro é a íntima e perturbadora relação entre o desmatamento e a desindustrialização.

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