Nós vamos precisar dos robôs

Por Abner Santos

Nossa relação com as máquinas tem se transformado profundamente.

Nos últimos séculos, durante a fase industrial moderna do capitalismo, o trabalhador ocupou a função de quase um alter-ego da máquina. Buscava-se um operador treinado mecanicamente para fazer trabalhos precisos e repetitivos com o auxílio de um aparelho. Aos poucos, as máquinas foram ganhando cada vez mais independência de seus operadores, na medida em que robôs mais inteligentes, mais fortes, rápidos e precisos foram surgindo.

Roll-Oh, um robô que prometia facilitar a vida doméstica em um tempo antes mesmo do microondas.

Na década de 1940 alguns dos primeiros robôs antropomorfizados (com características humanas) cativaram a atenção do público, criando uma expectativa que hoje parece cômica, de um robô que pudesse ser um ótimo empregado doméstico. Claramente, estavamos nos sentindo otimistas, pensando em todo o conforto que poderia ser trazido com as novas tecnologias. Até então, tudo sob controle.

Depois de Eu, robô, de Matrix e de uma série de outros marcos culturais que pautaram nossa opinião sobre os robôs, muita coisa mudou. Os robôs foram incansavelmente representados como rebeldes que aos poucos se tornaram conscientes e perigosos.

Dentre o entusiasmo da década de 40 até as problematizações atuais, é certo que hoje vemos as máquinas inteligentes com uma certa desconfiança, que não é de todo infundada, mas que talvez estejam mais voltadas para os donos dessas máquinas do que para o temor de uma suposta desobediência e rebelião dos robôs contra os humanos.

Talvez o problema esteja justamente aí: esses robôs não desobedecerão jamais.

No filme “Matrix” os seres humanos são meras baterias de um mundo dominado pelas máquinas.

A relação humana com a automação nunca foi simples. As inovações tecnológicas podem ser disruptivas a ponto de desorganizar e reorganizar toda a sociedade, como já aconteceu muitas vezes e está acontecendo neste exato momento.

Hoje, recebemos ligações de robôs nos cobrando de nossas dívidas, temos assistentes virtuais para apagar e acender as luzes, bem como tocar música e responder a perguntas. Discutimos política com bots no twitter. Temos interagido de forma cada vez mais profunda e natural com os robôs e a inteligência artificial já se tornou tão cotidiana que passa despercebida.

E nós apenas começamos a perceber as várias maneiras que essa interação nos influencia.

Os países desenvolvidos criaram uma resposta até então razoavelmente suficiente para o problema do desemprego via automação: uma crescente qualificação da força de trabalho. Se um operador em uma linha de produção é substituido por um braço robótico, basta criar um emprego mais qualificado, na própria produção dos braços robóticos.

Mas pode ser que dessa vez isso não funcione.

Segundo Peter Frase, no livro “Quatro futuros- a vida após o capitalismo”, mais de 80% dos empregos nos EUA estão vulneráveis a automação via inteligência artificial, principalmente a partir da implementação das tecnologias 5G. Uma onda que pode nos atingir como um tsunami nas próximas décadas.

Essa nova modalidade de automação muda tudo. Agora, uma série de empregos não-repetitivos passam a ser vulneráveis a automação. Atendentes, motoristas, contadores, professores, médicos, secretários, dentre muitos outros, estão em algum grau, em uma posição perigosa dentro do mercado de trabalho.

Segundo Yuval Harari, autor de “Sapiens” e “Homo Deus”, nosso regime de propriedade combinado com a nossa capacidade de substituir a mão de obra humana pode estar gerando uma multidão de desempregados simplesmente inúteis do ponto de vista da produção, mas essenciais para o plano do consumo. Essa contradição não terá nenhuma resolução fácil.

Mas ao mesmo tempo que vislumbramos uma crise da automação, em que há um aparente excesso de força do trabalho, nos deparamos com os problemas previdênciarios produzidos por uma população que envelhece rapidamente. A idéia é que fique cada vez mais dificil que os jovens paguem a aposentadoria dos idosos com seu trabalho. Como essas duas crises irão interagir?

“A crise da automação é uma crise de excesso, já a crise ecologica e climática é uma crise de escassez” Peter Frase sintetiza.

A demografia brasileira evoluiu muito rápido nos últimos 50 anos. Na década de 60, cada mulher tinha em média 6 filhos! Hoje, são 1,5 filhos por mulher, abaixo da taxa de reposição (2). Em que cada casal deixa dois filhos para a proxima geração e a população se mantém estável.

Pode parecer louco imaginar isso, mas o IBGE calcula que em 2047 (daqui 27 anos) a população brasileira vai atingir um teto de 230 milhões de pessoas, e então começará a diminuir e envelhecer.

Isso só pode ser evitado se convencermos as meninas que nascerão nos próximos 30 anos a terem mais de 2 filhos, o que não parece razoável (nem desejável), considerando o avanço das discussões sobre feminismo, sexualidade, métodos contraceptivos e aborto.

A pirâmide etária do Brasil demonstra uma tendência na nossa evolução demográfica.

O que poderia acontecer com o mercado imobiliário em um mundo com milhões de casas sobrando e outras milhões sendo desocupadas por ano? Seria a falência dos condomínios?

Como o mercado financeiro e o mundo dos investimentos, de crédito que se baseia na confiança no crescimento futuro, lidará com uma economia altamente deflacionária e em retração?

Apesar de todos os problemas econômicos e previdenciários que uma população declinante e envelhecida enfrenta, é certo que a diminuição da demanda sobre a produção de alimentos e mineração, bem como a diminuição de matéria descartada e poluição terá um impacto muito positivo para os ecossistemas do Brasil e do mundo.

Então uma coisa é certa: vamos precisar de muita força de trabalho e empresas muito produtivas para entregar uma vida generosa para uma sociedade envelhecida, já que o processo de redução populacional pode ter efeitos muito positivos para o meio ambiente, e é considerado por muitos, um dos passos mais fundamentais para superar a crise climática e ecológica.

Para que a automação e a força de trabalho dos robôs seja revertida em bem estar e riqueza para a humanidade, e não desemprego, fome, violência e desespero, precisamos nos apropriar dessas tecnologias, denunciando seus abusos e construindo uma nova institucionalidade que torne publico e universal o acesso a esses meios mais produtivis de trabalhar e produzir, ao invés de deslocar quase todo o dinheiro que existe para as mãos de uma elite tecnocrata de bilionários que detém a propriedade intelectual sobre as tecnologias que nós vamos precisar para passar por essa transição demográfica tão necessária.

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